"Há quem goste de desvalorizar o amor. Há quem diga que o amor é uma emoção instável, um sentimento da juventude, uma prisão, ou algo ligado a mundos cor-de-rosa, a pieguice, a sentimentalismo tolo, a ilusões espalhadas pela natureza...
De acordo com esta visão, há que ser-se forte, que encarar o mundo tal qual ele é, enfrentando a sua crueldade, sem lirismos e poesias desfasadas. O importante é o poder, o sexo, o prazer, ganhar a vida, sobreviver. Romeus e Julietas, Tristãos e Isoldas, Heloísas e Abelardos são apenas personagens de amores literários, medievais, intérpretes de cantilenas. A vida não é assim.
De facto, a vida e o amor, na sua essência mais profunda, não é assim. Ou não é só assim. O amor não pode ser confundido com grandes amores líricos.
Mas isso não significa que seja legítimo reduzir a vida ao mundo das máquinas, a um mundo dominado pela insensibilidade, pela lei do mais forte, ou pela razão, sem sentimentos de beleza, amizade, ou amor. Sem esses elementos deixaríamos de viver num mundo humano.
Não se pode reduzir o amor às suas formas mais cruas: o amor ao poder, o amor à força, o amor ao prazer carnal. Não se pode reduzir a vida aos seus aspectos mecânicos ou puramente animais. Não podemos viver sem emoções, sentimentos, e por isso não podemos viver sem amor.
Como Francis Bacon sublinhou, onde não há amor, há solidão, e «as caras são mera galerias de retratos, e a conversa mero tilintar de címbalos». O amor é, em muitos sentidos, a coisa mais importante das nossas vidas. Sem amor nada somos."
Ensaios sobre o Amor
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